O recém-eleito Deputado Raiado de Goiás, Edson Luís Souza Melo (PSD), com 32.717 votos, encontra-se no centro de um escândalo político e judicial. Um levantamento minucioso da revista piauí, publicado recentemente, revela que Raiado, ex-chefe do Comando de Operações de Divisas (COD) da Polícia Militar de Goiás, foi colocado sob escrutínio por um triplo homicídio meses antes de sua eleição. A investigação aponta que, entre 2014 e 2023, o parlamentar participou diretamente de treze ocorrências que resultaram em 24 mortes decorrentes de intervenção policial.
A notícia expõe um histórico de alta letalidade, levantando sérias questões sobre a conduta policial e o processo de investigação de mortes em confrontos no estado. A ascensão política de Raiado, que se tornou figura pública após comandar a operação que resultou na morte de Lázaro Barbosa em 2021, contrasta com as revelações sobre as circunstâncias de diversas mortes em que esteve envolvido.
O Histórico do Deputado Raiado de Goiás na PM
Edson Luís Souza Melo, o Raiado, ingressou na Polícia Militar de Goiás em 2010, após atuar como guarda municipal em Goiânia. Após um curso de dois anos para oficiais, tornou-se segundo-tenente. Em julho de 2014, passou a integrar a Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas), onde adotou o codinome Raiado, em referência ao símbolo do batalhão. Já no mês seguinte, registrou sua primeira “resistência seguida de morte”.
Sua trajetória na PM foi marcada por uma postura vocal em defesa da truculência policial. Em 2022, ao tentar uma vaga de deputado federal, declarou:
Acredito que a polícia deve matar mais. Deve matar mais, no sentido de bandido, né?Essa retórica, que exalta práticas flagrantemente ilegais como matar testemunhas, conforme um vídeo de maio de 2023 em que ele entoa versos com policiais do COD, não prejudicou sua campanha eleitoral para a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego).
O levantamento da piauí, baseado em processos judiciais e na ficha funcional de Raiado, aponta sua participação em treze ocorrências que resultaram em 24 mortes. É importante notar que, em nenhum desses casos, houve registro de policiais mortos ou feridos, um fato que contrasta com a versão oficial da PM de que todas as mortes ocorreram durante trocas de tiros e que os policiais apenas reagiram.
A Alta Letalidade da Polícia de Goiás em Destaque
A carreira de Raiado, longe de ser atrapalhada pela alta letalidade, foi impulsionada. Em fevereiro de 2021, ele foi nomeado chefe da segurança do governador Ronaldo Caiado (PSD), cargo que ocupou até março de 2022. Sua notoriedade aumentou significativamente após o comando da operação que resultou na morte de Lázaro Barbosa em 2021, o que ele soube capitalizar para sua candidatura.
A postura de Raiado reflete uma mudança na política de segurança pública de Goiás, que se tornou mais violenta nos últimos anos. Em 2015, o estado registrava 151 mortes causadas pela polícia. Esse número teve saltos expressivos, atingindo 611 em 2021, o segundo ano do governo Caiado. Embora tenha havido uma queda desde então, com 362 mortes registradas em 2025, o patamar ainda é significativamente superior ao de dez anos atrás. Atualmente, Goiás ocupa a quinta posição no país em número de vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Para os moradores do Centro-Oeste, esses números indicam um cenário de crescente confronto e preocupação com a atuação das forças de segurança. Para mais detalhes sobre o tema, confira nossa análise sobre a letalidade policial em Goiás.
O Caso do Triplo Homicídio de 2023 e as Contradições
Um dos casos mais emblemáticos envolvendo Raiado é o triplo homicídio ocorrido em 17 de fevereiro de 2023, às vésperas do Carnaval, em uma chácara do condomínio residencial Buena Vista II, em Goiânia. Na ocasião, o piloto Felipe Ramos Morais, que havia se tornado delator do PCC, e seus dois colegas de trabalho, Paulo Ricardo Pereira Bueno e Nathan Moreira Cavalcante, foram assassinados a tiros pela Polícia Militar. Os disparos foram efetuados por Edson Raiado e pelo major Renyson Castanheira Silva, então braço direito de Raiado no COD.
A versão oficial da PM descreveu a situação como uma denúncia anônima de tráfico de drogas, seguida de uma fuga em caminhonete e troca de tiros. Raiado chegou a se vangloriar, afirmando à TV Band que estava sendo dado
um duro golpe no tráfico internacional de drogas.No entanto, a investigação da piauí revela contradições. Apesar do arquivamento da investigação em agosto de 2023, a versão oficial da PM sobre o ocorrido na chácara foi alvo de questionamentos devido a contradições.
As Consequências para Investigações de Crime Organizado
A morte de Felipe Morais teve um impacto devastador nas investigações de tráfico internacional de drogas. Morais havia fechado um acordo de delação premiada e feito revelações importantes sobre os vínculos do PCC com empresários do setor de combustíveis em São Paulo, dando origem à Operação Rei do Crime, em 2020. Com sua morte, a investigação ruiu, e os empresários investigados ficaram impunes. A Operação Rei do Crime serviu de base para outra investigação de lavagem de dinheiro no ramo de combustíveis, a Carbono Oculto, que possuía um braço importante no interior de Goiás. A interrupção da colaboração de Morais representou um duro golpe para o combate ao crime organizado na região, afetando diretamente a capacidade do sistema de justiça de desmantelar redes criminosas que atuam no Centro-Oeste.
A revista piauí teve acesso aos inquéritos que investigaram nove das treze ocorrências com mortes envolvendo Raiado. Em quase todas, um padrão se repetiu: ausência de testemunhas oculares, falta de perícia no local e de busca por imagens de câmeras de segurança. Na maioria das vezes, os únicos depoentes foram os próprios policiais. Apesar dessas falhas, todas as investigações contra Raiado foram arquivadas prontamente, com a exceção do caso do delator do PCC, que o colocou na berlinda.
A Resposta do Governo e o Cenário na Alego
A denúncia contra o Deputado Raiado se soma a um cenário de tensões e controvérsias na Assembleia Legislativa de Goiás. Embora não diretamente relacionados ao caso de Raiado, outros incidentes recentes destacam um ambiente político acalorado. Em maio de 2026, os deputados estaduais Major Araújo e Amauri Ribeiro (ambos do PL) protagonizaram um bate-boca no plenário da Alego, com ameaças de morte registradas em vídeo. O presidente da casa, Bruno Peixoto (União), afirmou que buscará punição. Esses episódios, embora distintos, contribuem para um quadro de questionamentos sobre a conduta e a ética de alguns parlamentares goianos, chamando a atenção para a necessidade de rigor na apuração das denúncias e na manutenção do decoro parlamentar na casa legislativa.