Avanços recentes no cenário comercial internacional abrem novas e promissoras perspectivas para o agronegócio goiano no Mercosul. Com a habilitação do município de Britânia para a exportação de cucurbitáceas e a entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia, Goiás se posiciona para expandir suas exportações. Isso gera mais renda e fortalece a economia de suas regiões interioranas. Neste domingo, 18 de outubro de 2026, produtores e autoridades celebram as oportunidades. Eles também se preparam para os desafios logísticos e de adequação que acompanham essa expansão.

O estado de Goiás já se destaca como um dos maiores produtores agrícolas do país. Agora, vislumbra um horizonte ainda mais amplo para seus produtos, especialmente no comércio com o bloco do Mercosul e a União Europeia. A expectativa é que essa abertura de mercado não apenas impulsione os volumes exportados. Ela também deve valorizar a produção local e criar novas cadeias de valor, beneficiando diretamente os trabalhadores e as comunidades do Centro-Oeste brasileiro.

Como a habilitação de Britânia impulsiona a fruticultura goiana?

O município de Britânia, localizado no Vale do Araguaia, alcançou um marco significativo. Ele se tornou o 20º de Goiás a ser habilitado para exportar frutos frescos de cucurbitáceas, como melancia, melão e abóbora. Esses produtos são destinados a mercados internacionais com exigências fitossanitárias específicas. Essa autorização, concedida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e oficializada pela Portaria SDA/Mapa nº 1.695 no início de outubro, é resultado de um rigoroso processo de monitoramento e controle de pragas. A Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) ofereceu apoio técnico.

Para obter o reconhecimento, produtores rurais e responsáveis técnicos de Britânia precisaram comprovar o cumprimento das exigências sanitárias estabelecidas pelo Mapa. O processo envolveu o monitoramento contínuo da praga Anastrepha grandis, conhecida como mosca-das-frutas das cucurbitáceas. Esta praga representa uma preocupação fitossanitária para a comercialização internacional. Segundo Mário Sérgio de Oliveira, coordenador do Programa de Sistema de Mitigação de Risco para Cucurbitáceas da Agrodefesa, foram realizadas coletas regulares e ações de monitoramento nas áreas de produção por seis meses consecutivos. Isso demonstrou a ausência da praga conforme os protocolos exigidos.

A inclusão de Britânia no Sistema de Mitigação de Risco (SMR) permite que os produtores locais atendam às exigências de mercados que adotam restrições quarentenárias relacionadas à mosca-das-frutas. Isso amplia as possibilidades de comercialização para países do Mercosul, como Argentina, Paraguai e Uruguai. O presidente da Agrodefesa, José Ricardo Caixeta Ramos, destacou que a habilitação é um avanço para a fruticultura goiana. É fruto do investimento e dedicação da equipe em fornecer respaldo técnico aos produtores.

A proximidade geográfica com os países do Mercosul, como Paraguai, Argentina e Uruguai, é uma vantagem logística crucial para Goiás. Isso é especialmente importante para o transporte rodoviário de produtos perecíveis como as frutas. Em 2025, Goiás já exportou cerca de 33 mil toneladas de melancia para mercados internacionais com exigências fitossanitárias específicas. Isso inclui países do Mercosul e os Emirados Árabes Unidos. A expectativa é que esse volume cresça com a expansão das áreas habilitadas.

Qual o impacto do Acordo Mercosul-União Europeia nas exportações de Goiás?

Paralelamente à abertura de mercado para frutas, o Acordo Mercosul-União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026. Isso ocorreu após cerca de 27 anos de negociações, conforme o ministro Márcio Elias Rosa, ou 25 anos, segundo a Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg). O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou em 13 de outubro de 2026 que o acordo elevou as exportações brasileiras em 30% desde sua implementação. O comércio exterior brasileiro como um todo cresceu, em média, 10,5%, com recordes em praticamente todos os destinos.

Para Goiás, as perspectivas são ainda mais animadoras. Um estudo da Fieg, divulgado em 16 de maio de 2026, estima que as exportações goianas para a União Europeia podem crescer até US$ 218 milhões com a plena implementação do tratado. Em 2025, o estado exportou US$ 1,68 bilhão para o bloco europeu, com destaque para soja, cobre, minério de ferro e carne bovina.

O acordo prevê a eliminação imediata de tarifas para 2,9 mil produtos brasileiros, sendo 93% deles industriais. Isso beneficia segmentos como alimentos processados, metalurgia, máquinas, equipamentos, produtos químicos e materiais elétricos. Entre os itens agropecuários, 77% terão suas tarifas de importação eliminadas pela UE, com reduções graduais em prazos que variam de quatro a dez anos. Frutas, sucos, peixes, crustáceos, óleos vegetais e café solúvel e moído já passaram a ter taxa zero. Produtos considerados “sensíveis” pelos europeus, como carne bovina, frango e porco, terão redução de imposto condicionada a cotas de exportação.

A análise da Fieg aponta que os dez principais produtos goianos beneficiados pela redução tarifária podem ter um incremento de US$ 60,1 milhões em exportações. Isso ocorrerá quando as concessões comerciais estiverem totalmente implementadas em 2036. No primeiro ano de vigência, a estimativa é de um crescimento de cerca de US$ 13 milhões (aproximadamente R$ 66 milhões). Setores como carne bovina (com potencial de crescimento de até US$ 38,7 milhões anuais para carne desossada congelada e US$ 12,3 milhões para carne fresca ou refrigerada), carne de frango, couro, açúcar, gelatinas e produtos químicos estão entre os mais favorecidos. Edson Novaes, gerente técnico do grupo de estudos da Faeg, considera o acordo uma oportunidade histórica de expansão para o agronegócio brasileiro. Saulo Nogueira, da Gerência de Desenvolvimento Industrial (Gedin) da Fieg, ressalta que a redução das tarifas de importação facilita o acesso a máquinas, equipamentos, insumos e tecnologias europeias. Isso moderniza as cadeias produtivas e aumenta a competitividade da indústria goiana.

O agronegócio goiano no Mercosul está preparado para essa expansão?

O estado de Goiás tem demonstrado uma robustez crescente em suas exportações. Em 2025, as exportações totais alcançaram US$ 13,4 bilhões, um crescimento de 9,4% em relação aos US$ 12,3 bilhões registrados em 2024. No agronegócio, Goiás respondeu por 6,7% dos US$ 169,1 bilhões movimentados pelo setor brasileiro no comércio exterior em 2025. Ocupou a sexta posição entre os estados exportadores do país.

A força do agronegócio goiano é evidente na produção de grãos. Na safra 2024/2025, o estado produziu 37,3 milhões de toneladas, representando 10,6% do volume nacional. A soja foi o principal produto, com 20,7 milhões de toneladas, correspondendo a 55,5% da produção estadual de grãos. Em julho de 2026, Goiás exportou 1,7 milhão de toneladas do complexo soja, o maior volume já registrado para esse mês na série histórica. A China absorveu 71,7% do volume, um crescimento de 9,9% em relação a 2025.

Municípios goianos também se destacam. Aparecida de Goiânia, por exemplo, exportou US$ 462,7 milhões em 2024, equivalente a 4,33% do total de Goiás naquele ano. No primeiro semestre de 2025, suas vendas externas chegaram a US$ 253,1 milhões. O Mercosul é o principal destino das exportações do município, que possui forte ligação com a agroindústria, incluindo cadeias de proteína animal e o complexo da soja. Marcos Abrão, secretário municipal de Indústria e Comércio de Aparecida de Goiânia, afirmou que a atividade exportadora pode gerar empregos e renda, especialmente com mercadorias de maior valor agregado. Isso beneficia toda a cadeia produtiva.

Palmeiras de Goiás também figura entre os grandes exportadores. Ocupou a quarta posição entre os municípios goianos em 2025, respondendo por 4.64% das exportações estaduais. Osvaldo Cassiano (PL), prefeito de Palmeiras de Goiás, vê o Mercosul como uma oportunidade estratégica para produtores e empresários do município. Isso se aplica tanto pela integração comercial quanto pelas possibilidades de ampliação de mercados.

Quais os desafios para consolidar o crescimento do agronegócio goiano no Mercosul?

Apesar do cenário promissor, a expansão das exportações goianas não está isenta de desafios. José Ricardo Caixeta Ramos, presidente da Agrodefesa, ressalta que a autorização fitossanitária, embora crucial, não garante a realização de negócios por si só. Os produtores precisam encontrar compradores, organizar o fornecimento e estruturar o transporte. Isso exige profissionalização, tecnologia, qualidade, padronização e volume de produção.

Especialistas apontam que, embora o comércio com países vizinhos abra espaço para proteínas, derivados de grãos e produtos industrializados, ainda há desafios logísticos, de escala e de acesso a compradores. A expansão das exportações exige atenção à logística, à capacidade de fornecimento e às diferenças entre os destinos. Atualmente, as vendas para os países do bloco Mercosul ainda ocupam uma parcela relativamente pequena do comércio exterior do estado. O comércio é concentrado principalmente em outros mercados.

O economista Aurélio Caixeta, em análise sobre o acordo Mercosul-UE, pontua que o grande gargalo atual não é apenas produtivo, mas regulatório. É necessário acelerar a adequação às exigências ambientais e sanitárias europeias. Um relatório da XP Investimentos, de 20 de janeiro de 2026, sugere que o acordo Mercosul-União Europeia tende a provocar efeitos econômicos limitados no curto prazo. Contudo, pode gerar transformações estruturais importantes nos próximos anos, com ganhos de produtividade no longo prazo. A corretora estima um aumento de aproximadamente 2% na produção do agronegócio, equivalente a quase US$ 11 bilhões, concentrado em aves, suínos, alimentos processados, óleos e gorduras vegetais e pecuária. Ela contesta a interpretação de que o acordo prejudicaria amplamente a indústria brasileira, indicando que setores tradicionais podem compensar perdas em setores mais intensivos em tecnologia.

Para o Centro-Oeste, e em particular para Goiás, a capacidade de adaptação e investimento em infraestrutura e qualificação será determinante. Isso permitirá aproveitar plenamente as portas que o Mercosul e seus acordos abrem. A sinergia entre o setor público e privado, como demonstrado na habilitação de Britânia, será essencial para superar os obstáculos e consolidar o estado como um polo exportador cada vez mais relevante no cenário global.